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O relatório do Banco Central que achou sete credores num CPF só
Uma auxiliar de enfermagem achava que devia a três bancos. O Registrato mostrou sete, com o saldo de cada um.
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A lista de credores que o Banco Central guarda
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Aos 38 anos, a auxiliar de enfermagem Luciana Freitas Prado sentou na cozinha de casa, em Londrina, com uma folha de caderno e tentou listar tudo que devia. Escreveu três linhas: o cartão do banco onde recebia o salário, um empréstimo pessoal numa financeira e o cheque especial da conta antiga.
A lista servia para uma conversa marcada no Procon da cidade, onde um mutirão de renegociação atendia quem levasse as dívidas organizadas. A atendente olhou a folha e pediu outro papel: o relatório do Registrato, emitido no site do Banco Central.
Luciana nunca tinha ouvido falar dele. O Registrato é um serviço gratuito do Banco Central que junta, num relatório só, as informações que bancos e financeiras mandam sobre cada CPF. O acesso é pela conta gov.br, e o relatório sai em PDF na mesma hora.
O relatório que interessa a quem deve se chama Empréstimos e Financiamentos. Ele puxa os dados do SCR (Sistema de Informações de Crédito, o cadastro em que as instituições financeiras informam ao Banco Central cada operação de crédito dos clientes).
Naquela noite, ela entrou no site pelo celular, fez login com a conta gov.br de nível prata (o grau de segurança que exige validação pelo aplicativo do banco ou por reconhecimento facial) e baixou o PDF.
O papel trouxe sete instituições. Além das três que ela lembrava, apareceram um crediário de loja de móveis feito por uma financeira parceira, um consignado antigo de um emprego anterior, o limite rotativo de um cartão que ela julgava cancelado e uma dívida classificada como prejuízo num banco digital.
O saldo somado passava de R$ 31 mil. A folha de caderno de Luciana chegava a R$ 12 mil.
A dívida de hoje segue a auxiliar de enfermagem desde a leitura das sete linhas até o acordo que fechou cada uma delas, e mostra onde o relatório engana quem lê com pressa.
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I A Dívida do Dia
As sete linhas no PDF de Luciana
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O relatório do SCR organiza as dívidas por instituição e por mês, com o valor separado em colunas.
Luciana Freitas Prado devia a sete credores e lembrava de três. Saiu do problema quando levou o Registrato ao mutirão do Procon, negociou as quatro dívidas esquecidas pelo saldo que cada banco informava e trocou o rotativo por um parcelamento com juros menores.
A primeira coluna mostra o crédito a vencer, as parcelas que ainda não chegaram na data. A segunda mostra o vencido, o que já passou do prazo sem pagamento. A terceira mostra o prejuízo (o crédito que o banco já lançou como perda no balanço, depois de meses sem receber).
A dívida do banco digital estava nessa terceira coluna. Era um cartão de R$ 1.800 aberto na pandemia, usado duas vezes e esquecido quando o celular antigo quebrou, com o aplicativo junto.
O consignado era de um hospital onde Luciana trabalhou até 2023. Ao sair, as parcelas deixaram de ser descontadas da folha, e ninguém avisou. O saldo seguia aberto, com juros de atraso somados mês a mês.
A atendente do Procon montou com ela a conta que o relatório mostrava:
| Cartão do banco do salário: | R$ 6.400 |
| Empréstimo pessoal na financeira: | R$ 4.100 |
| Cheque especial da conta antiga: | R$ 1.700 |
| Crediário da loja de móveis: | R$ 2.900 |
| Consignado do emprego anterior: | R$ 8.600 |
| Cartão com rotativo ativo: | R$ 5.700 |
| Prejuízo no banco digital: | R$ 1.800 |
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“O consumidor, sem prejuízo do disposto no art. 86, terá acesso às informações existentes em cadastros, fichas, registros e dados pessoais e de consumo arquivados sobre ele, bem como sobre as suas respectivas fontes.”
Código de Defesa do Consumidor, Lei 8.078, artigo 43, Brasil, 1990
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O Registrato cumpre esse direito no crédito bancário. A lista vem com a fonte de cada linha, a instituição que informou a dívida, e dá ao devedor o mesmo retrato que o banco consulta quando analisa um pedido de empréstimo.
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O credor já sabe quanto você deve a cada banco do país. O Registrato põe essa mesma lista na mão do devedor, de graça.
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Com o PDF na mesa, Luciana parou de negociar pelo que lembrava. Na renegociação, começou pelo consignado, que tinha a taxa de atraso mais pesada, e pediu ao banco o boleto de quitação com base no saldo informado ao Banco Central.
O cartão do banco digital, lançado como prejuízo, saiu por R$ 540 à vista, depois que o banco ofereceu desconto sobre a dívida que já dava como perdida. O rotativo virou parcelamento em 18 vezes, com juros mensais menores que os do crédito rotativo.
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II Armadilha da Semana
A dívida que some do relatório e continua existindo
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O Registrato mostra o que as instituições financeiras informam ao Banco Central. Tudo que fica fora desse circuito não aparece no PDF.
Dívida vendida para empresa de cobrança, conta de luz, aluguel, mensalidade de escola e crediário feito direto com a loja, sem financeira no meio, não entram no SCR. O relatório limpo em uma dessas frentes não prova CPF limpo.
A primeira armadilha é a cessão de crédito (a venda da dívida atrasada para outra empresa, que passa a cobrar no lugar do banco). Quando o comprador é uma securitizadora que não reporta ao SCR, a linha desaparece do Registrato e a cobrança continua, agora com outro nome no boleto.
Luciana viu o caso na prática. O cheque especial da conta antiga constava no relatório de um mês e sumiu no seguinte. Duas semanas depois, chegou pelo WhatsApp uma mensagem de uma empresa de recuperação de crédito cobrando R$ 2.300 pela mesma dívida.
A segunda armadilha é o atraso do dado. As instituições enviam as informações ao Banco Central mensalmente, e o relatório reflete a posição do mês anterior. Uma dívida quitada na semana passada ainda aparece aberta, e uma parcela vencida ontem ainda não aparece.
A terceira é o golpe. Sites com nome parecido cobram taxa para emitir o relatório, ou pedem senha de banco para uma suposta consulta de dívidas. O Registrato fica no endereço registrato.bcb.gov.br, não cobra nada e só pede o login da conta gov.br.
Os sinais de que o relatório está incompleto aparecem assim:
| Linha que some de um mês para outro sem quitação: | dívida vendida |
| Cobrança de empresa que não aparece no PDF: | credor fora do SCR |
| Dívida paga que segue listada: | dado do mês anterior |
| Site que pede pagamento ou senha: | golpe |
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O PDF do Banco Central mostra o que os bancos contam ao regulador. Para ver quem mais cobra seu CPF, cruze com a consulta gratuita do Serasa, da Boa Vista e do SPC.
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A dívida cedida não perde o prazo. A cobrança continua limitada aos cinco anos do artigo 206 do Código Civil para dívida de documento particular, e a negativação no Serasa também cai em cinco anos pelo artigo 43 do Código de Defesa do Consumidor, contados do vencimento.
Luciana pediu à empresa de recuperação o contrato de cessão e o extrato da dívida. O valor cobrado incluía juros que o banco original nunca tinha lançado. Com os papéis na mão, ela fechou por R$ 900.
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