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ED 022

O DAS de R$ 76 que virou dívida no CPF

Doze guias atrasadas somam R$ 912, viram dívida ativa da União e a cobrança alcança o CPF do titular do MEI.

Uma pilha de boletos dobrados presos por um clipe metálico sobre a mesa escura.

A guia mais barata do mês virando dívida da União

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A guia do DAS é a conta mais barata que um negócio formal paga no Brasil. Uma folha só por mês, vencimento todo dia 20, reunindo o INSS do titular e o imposto estadual ou municipal conforme a atividade. Fica na casa dos R$ 76 para comércio e indústria e um pouco acima para quem presta serviço. Não exige contador, não exige cálculo e não exige declaração mensal.

Justamente por ser barata ela é a primeira a ser adiada. O boleto de R$ 76 perde para o fornecedor que ameaça suspender a entrega, para a conta de luz com corte marcado e para o aluguel que tem fiador cobrando. O atraso não aperta o caixa no mês em que acontece, e por não apertar ele não avisa. A pessoa segue emitindo nota e atendendo cliente, com a impressão de que está tudo em ordem.

O que corre por baixo é outra coisa. A guia vencida recebe multa de 0,33% por dia de atraso, limitada a 20% do valor, mais juros pela Selic acumulada e 1% no mês do pagamento. Depois de um tempo parada, a Receita encaminha o débito para inscrição em dívida ativa da União, e ali a natureza muda: sai do sistema do Simples Nacional, passa para a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional e ganha uma certidão que vale como título executivo, sem precisar de processo de conhecimento para virar cobrança judicial.

O detalhe que quase ninguém explica no dia da abertura é quem responde por esse valor. O MEI é empresário individual, e empresário individual não tem separação de patrimônio. O CNPJ é uma inscrição da mesma pessoa que já existe no CPF, e não existe sócio, capital social protegido nem véu para ser levantado. A dívida do negócio nasce sendo dívida do titular, sem etapa intermediária.

A dívida de hoje são doze guias de um MEI de serviços, doze meses inteiros deixados para depois, e o dia em que o titular descobriu que o número tinha mudado de lugar.

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I  A Dívida do Dia

As doze guias que somaram R$ 912 no nome do titular

A guia mais barata do mês cobra o titular, não a empresa.

O valor original das doze guias era de R$ 810, uma média de R$ 67,50 por mês num CNPJ aberto quatro anos antes. Com multa e juros até a data da consulta, o total pedido pelo sistema chegou a R$ 912, e a diferença de R$ 102 é exatamente o preço de ter deixado a folha mais barata do mês para o fim da fila.

O titular presta serviço de manutenção e emite nota para duas empresas fixas. O faturamento ficou dentro do limite e a atividade estava certa no cadastro. O que faltou foi um boleto de menos de setenta reais, doze vezes seguidas, sempre com a mesma explicação: esse mês aperta, mês que vem eu pago dois.

A descoberta não veio de carta nem de ligação. Veio na hora de fechar um contrato novo, quando a empresa contratante pediu a certidão negativa de débitos e o sistema devolveu uma certidão positiva, com o número da inscrição em dívida ativa e o valor consolidado ao lado. O contrato ficou parado enquanto o titular entendia o que estava lendo.

O quadro completo do débito cabe em seis linhas:

Guias em atraso:12
Valor original somado:R$ 810
Multa e juros acumulados:R$ 102
Total consolidado na consulta:R$ 912
Guias já inscritas em dívida ativa:7
Guias ainda no sistema da Receita:5

A separação entre as sete e as cinco é a informação mais útil da consulta inteira, e é a que passa despercebida. As cinco guias mais recentes ainda estavam no sistema do Simples Nacional, e podiam ser pagas ou parceladas ali mesmo, pelo aplicativo do MEI, sem intermediário. As sete antigas já tinham sido transferidas para a Procuradoria, com número de inscrição próprio, e só se resolviam no portal da dívida ativa.

Débito inscrito e débito não inscrito são o mesmo dinheiro em dois balcões diferentes. Pagar no balcão errado é o motivo mais comum de a certidão continuar positiva depois do pagamento.

O titular pagou as cinco guias recentes à vista, R$ 372 no total, porque cabia no caixa daquela semana e limpava a parte mais barata da conta. As sete inscritas foram para parcelamento, com entrada e prestações mensais, cada uma com valor acima do piso exigido.

A certidão mudou de status no dia útil seguinte à confirmação do parcelamento. Não porque a dívida acabou, mas porque débito parcelado e em dia entra na condição de exigibilidade suspensa, e a certidão passa a sair como positiva com efeito de negativa, que é o documento que a empresa contratante aceita.

O contrato foi assinado onze dias depois da consulta que travou tudo. O custo real do adiamento não foram os R$ 102 de encargo, foram os onze dias parados e o desconforto de explicar ao cliente por que a certidão de uma empresa ativa estava suja.

 
 

II  Armadilha da Semana

O CNPJ baixado que não apaga o débito

Dar baixa no MEI para se livrar da dívida é a decisão que mais custa caro nesse assunto. O CNPJ fecha, o débito continua, e o único efeito prático é perder o acesso mais simples ao parcelamento.

A primeira armadilha é acreditar que a baixa extingue a cobrança. O encerramento do MEI é permitido mesmo com débito em aberto, e a própria tela avisa que os valores continuam exigíveis do titular. O que some é a empresa, não a dívida, e ela segue no CPF de quem assinou a abertura.

A segunda é confundir o DAS com a declaração anual. São duas obrigações separadas: a guia mensal e a DASN-SIMEI, entregue uma vez por ano com o faturamento do exercício anterior. Quem paga tudo e esquece a declaração leva multa própria, com valor mínimo na casa dos R$ 50, reduzido pela metade quando entregue antes de qualquer notificação.

A terceira é parar de recolher achando que o INSS fica congelado. Cada mês pago pelo DAS conta como contribuição para aposentadoria por idade, auxílio-doença e salário-maternidade. Mês em aberto não conta enquanto não for quitado, e a perda de qualidade de segurado acontece por prazo, não por vontade, o que deixa o titular sem cobertura justamente quando precisa afastar.

A quarta é pagar guia antiga gerando um boleto novo pelo valor de hoje. O sistema calcula multa e juros por competência, e o pagamento feito com valor errado quita parcialmente, deixa saldo residual e mantém o mês em aberto no relatório, com a pessoa convencida de que já resolveu.

Os números que organizam a regularização são poucos e vale saber cada um:

Multa por atraso do DAS:0,33% ao dia, teto de 20%
Juros:Selic acumulada mais 1% no mês do pagamento
Parcela mínima no parcelamento do MEI:R$ 50
Prazo máximo do parcelamento convencional:60 meses
Multa mínima por DASN-SIMEI em atraso:R$ 50
Prazo de prescrição do crédito tributário:5 anos

A quinta armadilha é ignorar o limite de faturamento enquanto a dívida corre. Ultrapassar o teto anual do MEI provoca desenquadramento e recálculo da tributação pelo regime seguinte, e uma dívida de guias somada a um desenquadramento transforma uma conta de R$ 900 num problema que precisa de contador para desmontar.

Consulte o débito antes de decidir qualquer coisa. A tela que separa o que está na Receita do que já foi para a Procuradoria decide sozinha em qual portal você resolve e por qual regra.

A sexta é aceitar oferta de terceiro que promete limpar o nome mediante taxa. Consulta, emissão de guia e parcelamento do MEI são gratuitos e feitos pelo próprio titular com a conta de acesso do governo.

A sétima é parcelar e não pagar a primeira parcela. O pedido só produz efeito depois do pagamento da parcela inicial, e o parcelamento pedido e abandonado rescinde, devolve o saldo integral para cobrança e queima a chance de refazer nas mesmas condições no curto prazo.

O caminho de saída tem quatro passos, todos gratuitos, e nenhum deles exige sair de casa.

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III  Calendário de Feirão

Os quatro passos que zeram a guia atrasada

A rota vale para MEI de comércio, de indústria, de serviço e para quem já deu baixa no CNPJ e descobriu o débito depois. Ela troca a estimativa de quanto se deve por um extrato com competência, valor e destino, que é o único ponto de partida honesto.

Passo 1, consultar: entre no Portal do Simples Nacional, área do Simei, e abra o relatório de situação fiscal com a conta de acesso do governo. O extrato lista mês a mês o que está em aberto e marca separadamente o que já foi inscrito em dívida ativa da União.

Passo 2, separar: monte duas listas com o que a tela mostrou. De um lado as competências ainda na Receita, do outro as inscritas, cada uma com o número da inscrição. As duas listas se resolvem em portais diferentes, e misturar as duas é o que faz o pagamento não baixar.

Passo 3, quitar o que é barato: para as competências ainda na Receita, gere o DAS pelo aplicativo do MEI ou pela função de emissão do portal, sempre marcando a competência correta. O sistema recalcula multa e juros até a data escolhida e devolve o boleto com o valor certo daquele mês.

O quarto passo é o parcelamento, e ele muda de endereço conforme a lista. Débito ainda na Receita se parcela no próprio Portal do Simples Nacional, em até 60 vezes, com parcela mínima de R$ 50. Débito já inscrito se negocia no portal da Procuradoria, onde aparecem também as condições de transação em vigor, com prazos e reduções de encargo que variam por edital.

Guarde o número do pedido e o comprovante da primeira parcela. O parcelamento só se torna efetivo com esse pagamento, e é a partir dele que a exigibilidade fica suspensa e a certidão passa a sair com efeito de negativa.

Emita a certidão depois de dois dias úteis para conferir. Se ela continuar positiva sem ressalva, quase sempre falta uma competência antiga em outro portal, e o extrato de situação fiscal mostra qual, sem ligação nem atendimento presencial.

Coloque as parcelas em débito automático ou num lembrete fixo no dia 20, junto com a guia corrente. O parcelamento antigo e o DAS do mês vivem no mesmo calendário, e a rescisão por parcela esquecida costuma acontecer com quem estava pagando direito.

Regularizar o DAS recupera a cobertura previdenciária dos meses pagos, destrava a certidão que os contratos pedem e devolve ao negócio o documento que prova, para quem vai assinar do outro lado, que a empresa está viva.

"Quantas competências do seu DAS estão em aberto no relatório de situação fiscal?"

 
 
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